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    Neurotoxicidade

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    Ehcsztein

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    Data de inscrição : 04/08/2016

    Neurotoxicidade

    Mensagem por Ehcsztein em Sex 05 Ago 2016, 11:22

    A questão da neurotoxicidade do MDMA costuma causar polêmica, tanto nos resultados encontrados, nas conclusões falazes e apressadas, e até mesmo no próprio conceito de toxicidade. A maioria da pesquisa sobre o MDMA se relaciona, de alguma forma, a este assunto. Com o drama de Ricaurte, um mito foi construído, com base em muita pesquisa metodologicamente falha, de que o MDMA é uma neurotoxina quase-fatal: se não se vê gente morrendo nas pistas de dança, espere para ver quando elas ficarem um caco quando mais velhas. Quer dizer, além de se basear nestes dados duvidosos, havia de se contar também com o medo presente quando se traça uma perspectiva de um futuro sombrio. Infelizmente faltou, para muita gente, perceber que a neurotoxicidade de uma substância é clara, e fácil de se perceber, no contexto da pesquisa atual.

    Toxicidade é uma propriedade intrínseca de uma substância, como a capacidade de perturbar o equilíbrio fisiológico de um organismo numa escala em que este organismo não pode ser considerado saudável. Muitas vezes é preciso um bom estrago do cérebro para que disfunções graves possam vir a acontecer, como no caso do parkinsonismo, cuja manifestação ocorre quando o sujeito apresenta um déficit de dopamina de mais de 70% (por causa da morte dos neurônios produtores de dopamina). Se considerarmos a relação entre a serotonina e transtornos afetivos, que é bem menos clara e específica, perceberemos que sujeitos com depressão maior apresentam, em média, um déficit de 30 a 40 porcento de serotonina. Estes números representam um bom pedaço da química cerebral, e todas as pesquisas com o MDMA nos apresentam cifras muito mais modestas do que estas.

    Colocado de forma simples, há duas maneiras de assegurar a neurotoxicidade do MDMA. Uma delas é o exame direto do tecido cerebral, como nos casos dos exames com os animais, tanto de forma direta (coleta de tecido, análise em microscópio) quanto indireta (técnicas de imageamento cerebral, como o PET e o fMRI); a outra, análise do comportamento dos sujeitos (depressão, ansiedade, perda de memória). Pessoalmente (como leigo), eu creio que a primeira deve ser priorizada, no estado atual, pois pela segunda é bastante tentador chegar a conclusões precipitadas. É importante deixar claro algumas questões com relação a esta história de neurotoxicidade. Uma delas é a questão das doses elevadas, e outra é uma diferenciação entre neurotoxicidade e neuroadaptação.

    Está comprovado, à bastante tempo, que doses elevadas de MDMA, em cobaias animais, provocam a destruição dos axônios de neurônios serotonérgicos (só os axônios, não os corpos celulares inteiros). No caso de ratos (mice) trata-se de axônios dopaminérgicos. O quadro é complicado pela temperatura ambiente elevada. Há bastante especulação de qual seria o mecanismo responsável por isto, como "estresse oxidativo" e/ou decomposição metabólica do MDMA pela monoaminaoxidase, entre outras hipóteses.

    Nos estudos animais, os cobaias são, via de regra, injetados com o MDMA em vários regimes, com diferentes concentrações e intervalos. Quando é encontrada uma ação neurotóxica, o regime usado é chamado de "regime neurotóxico", e é a partir deles que os dados são extrapolados para os seres humanos.

    É aí que entra um grande pequeno problema: a escala interespécies. Esta é uma fórmula matemática para predizer, a partir de um animal menor, o quanto é necessário em um animal maior para se alcançar o mesmo efeito (neste caso, a neurotoxicidade). É a mesma lógica usada na diferença de dosagem de remédios entre crianças e adultos. Contudo, esta escala se baseia em mecanismos simples de ação, e os mecanismos de ação do MDMA são mais complexos.
    De acordo com esta escala, portanto, vários pesquisadores (Ricaurte) estimaram a "dose fatal" para humanos a partir de 1,28 mg/kg. Neste sentido, praticamente todos os consumidores de MDMA/ecstasy estariam tomando doses neurotóxicas, dados que pareciam condizer muito pouco com a realidade.

    Estudos atuais, onde primatas não-humanos se auto-administram MDMA, parecem fornecer uma linha melhor de avaliação de uma "escala interespécies". Nestes estudos, não foram encontrados qualquer evidência de redução da dopamina, redução mínima da serotonina, e nenhum sinal de dano aos axônios.

    O sistema nervoso tenta sempre se recuperar de níveis anormais de atividade, de várias maneiras; este fenômeno tem o nome de neuroadaptação, e está envolvido desde tolerância a substâncias até dependência física. Embora o fumante novato possa ter reações adversas ao fumo, como náusea e vômitos, o fumante experiente não as apresenta; este, contudo, apresentará um quadro de abstinência física muito maior, e mais duradouro. Neuroadaptação não é um dano; como o fumante pode parar de fumar e retornar aos níveis normais de atividade, isto é bastante diferente do que se costuma chamar de "neurotoxicidade". A neuroadaptação também é usada para fins positivos, como em muitos tratamentos antidepressivos (com os ISRS - fluoxetina, etc).

    No caso do uso recreativo de uma substância, contudo, o efeito é, na maioria das vezes, disruptivo: no caso do MDMA, o cérebro se torna menos sensível à serotonina, devido ao excesso de serotonina liberado pela droga, e esta falta de sensibilidade pode durar de dias até semanas para voltar ao nível normal. Com um uso contínuo de MDMA/ecstasy, este tempo de recuperação pode não estar disponível, e muitas pessoas podem desenvolver então casos de depressão, ansiedade, etc, quadros que são relacionados, tradicionalmente, a danos estruturais nos neurônios. Embora estes danos estruturais podem estar presentes, há também uma explicação alternativa para esta questão. A linha divisória entre neuroadaptação e neurotoxicidade (ou, para deixar em termos mais claros, entre "danos passageiros" e "danos permanentes") não é tão clara quanto muitas pessoas gostariam que fosse.


    Por: Ítalo Verdelli

      Data/hora atual: Qua 21 Nov 2018, 19:04